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94 anos de negação

Esses dias recebi um email do Serj Tankian, relembrando toda sua trajetória e luta pelo reconhecimento do Genocídio Armênio.

Esta semana ele e o pessoal do Axis of Justice (organização criada por Serj, junto com Tom Morello, que luta por justiça social em todas as formas) estão lançando uma campanha de reconhecimento do Genocídio Armênio, em comemoração ao 24 de abril: dia mundial em memória das vítimas de atrocidades. E dia que, em 1915, marcou o início do primeiro genocídio (acima citado).

Com o apoio e participação de alguns notáveis colegas e ativistas (como Boots Riley, Adam Schiff – o deputado – e Morello, óbvio), Serj postou no YouTube e no MySpace, um vídeo em que pede para o presidente Barack Obama reconhecer oficialmente o Genocídio Armênio. Ao final, há uma mensagem incentivando as pessoas à liguarem para (202) 456-1414 (no caso, a ligação é internacional) e pedir urgência ao presidente Obama, em manter sua promessa de campanha e reconhecer as atrocidades cometidas durante a Primeira Guerra Mundial como Genocídio.

Como sou ativista do movimento que luta pelo fim do ciclo genocida (neste caso, Darfur) e pelo reconhecimento do genocídio armênio, deixo aqui o vídeo de Serj e uma carta escrita por ele (carta, essa, que ele pede para ser divulgada; por isso, tomei liberdade de traduzi-la e postar aqui!):

Nossa anual batalha contra a palavra “G”

“Todos anos, nesta época de abril, uma batalha é travada na Casa Branca e no Congresso; uma batalha única, porque tem em seu âmago uma palavra: genocídio.

As raízes desta luta residem nos últimos dias do Império Otomano, em meio à Primeira Guerra Mundial. Os governantes do Império Turco armaram um plano para, de uma vez por todas, livrarem suas fronteiras de sua maior minoria: os antigos cristãos-armênios, uma população de mais de dois milhões de pessoas, espalhadas por todo o território de Anatolia.

De um modo sistemático, as forças armadas do Império mataram mais de um milhão de indivíduos, começando com os intelectuais e com homens que tinham boa forma física. Em seguida, marcharam o resto para perto da morta certa, no deserto sírio, resultando na quase aniquilação de todo um povo e no exílio de uma nação, da sua casa de mais de 3 mil anos. Estas atrocidades foram amplamente divulgadas na época e, hoje em dia, é um dos massacres mais bem documentados e detalhados.

Para este dia, contra todas as evidências e desafiando até mesmo os mais elementares padrões da moral humana, a República da Turquia nega este crime. Eles também masterizaram Orwellian Newspeak, convencendo os cidadãos turcos, geração após geração, que o genocídio nunca ocorreu.

Cada ano, eles gastam milhões de dólares contratando empresas caras de lobby; criando cadeiras universitárias que patrocinam os negadores do genocídio; comprando as idéias de política externa dos think tanks aqui nos EUA e em todo o mundo e, ao mesmo tempo, ameaçando fechar as bases americanas na Turquia; bloqueando o acesso à nossas tropas no Iraque; ameaçam o comércio ou fazem reatalições contra a Armênia, com bloqueios e pressão econômica.

Eles pensam que apagando uma palavra – genocídio – irão, de alguma maneira, escapar da responsabilidade pelas mortes e sofrimento, roubos e desapropriações que causaram. A Turquia não pode mais desviar-se do veredicto da história ou dos requerimentos de justiça colocando uma tarja na palavra genocídio, assim como um assassino não pode escapar de sua punição por insistir que a palvra assassinato não existe.

Eu, pessoalmente, sou muito familiar com a palvra genocídio. Todos os meus quatro avós foram sobreviventes. No caso de meu avô, Stepan Haytayan (cuja história de vida é contada no documentário Screamears – assistam!), os soldados turcos chegaram em seu vilarejo, pegaram seu pai e todos os homens, para nunca mais serem vistos. Esta era uma prática padrão dos soldados turcos , que amarravam os homens para levá-los aos ‘campos de trabalho’, onde eram executados, deixando as mulheres crianças desprotegidas e sujeitas à marchas forçadas, descrita por Henry Morgenthau, embaixador americano da época, como ‘a morte justificada de toda uma raça’.

A semelhança entre o tratamento dos Armênios e o atual genocídio de Darfur foi apontado ano passado por Barack Obama, que notou que ‘tragicamente, estamos testemunhando no Sudão, muitas das mesmas práticas brutais – como deslocamento, fome e abate maciço – que foram usadas pelas autoridades Otomanas, contra os indefesos armênios, em 1915’. Não é coincidência que a Turquia é uma apenas uma, de um punhados de outras nações, juntamente com a China, que ainda vende armas para o regime genocida sudanês, ou que Ankara está tentando proteger seu líder, Omar al-Bashir, de um mandado de detenção pelo Tribunal Penal Internacional.

Mesmo antes do advogado internacional Raphael Lemkin, um pólo de herança judaica, cunhar o termo ‘genocídio’, estava claro para o mundo que um plano sistemático de exterminação racial havia sido executado pelos turcos otomanos. As motivações de Lemkin, em inventar este termo e levar sua carga para a Convenção do Genocídio foram, em grande parte, seus estudos sobre o genocídio Armênio cujo ele, com grande prospectiva, viu como plano para as destruições dos judeus europeus por Hitler e as brutais máquinas do estado nazista alemão.

Durante muitos anos, a Turquia alavancou membros da NATO, seu antigo papel na Guerra Fria, seu poder de lobby e alianças militares-industriais para comprar, intimidar ou ameaçar outras nações em silêncio sobre o genocídio armênio. Muitos países, incluindo os EUA, foram feitos reféns dos avisos de retaliações por parte da Turquia, mas outros vários estão levantando-se ante esta intimidação. Entre eles estão Canadá, França, Alemanha, Bélgica, Itália, Rússia e uma lista crescente que inclui 12 aliados da NATO. Aqui nos EUA, 41 estados já reconheceram o genocídio armênio.

Hoje, conforme vamos nos aproximando de 24 de abril, dia mundial em memória do Genocídio Armênio, olhamos para o Presidente e para o Congresso e esperamos que defendam o que é certo; pronunciem-se contra o genocídio armênio e todos os outros genocídios, a nível de valores americanos, e nunca mais permitam que os Estados Unidos sejam arrastados para baixo, ao nível das ameaças turcas.

Neste abril, a Turquia tentará bloquear, mais uma vez, a Casa Branca e o Congresso, de condenar e comemorar este crime, dando à ela própria uma votação a qual não merece nossa democracia americana. Um governo estrangeiro, particularmente um que suprime violentamente a liberdade de expressão através de seus próprios cidadãos, não deveria, nunca, ditar os direitos humanos nos Estados Unidos ou sua política de prevenção ao genocídio.

Nós, infelizmente, não aprendemos nossa lição. Aqui estamos, nove décadas depois do genocídio armênio – e integrando seis anos de genocídio em Darfur – e a comunidade internacional ainda precisa forjar uma durável e efetiva resposta ao genocídio. Líderes globais provam a má vontade que têm em interferir efetivamente para parar o massacre que continua acontecendo no Sudão. E eles estão sendo incapazes de criar coragem para acabar com as negações turcas. Por quê? Porque genocídio continua a ser uma questão política, permutada como uma mercadoria pelas grandes potências, e não um imperativo moral que todas as nações e todos os povos devem, a todo custo, agir para impedir.

Presidente Obama é o presidente americano melhor posicionado, em gerações, a trazer mudanças reais na questão de como a América e a comunidade internacional confronta as desumanidades em massa; e é a nossa melhor esperança para reunir as pessoas do mundo e encerrar os ciclos genocidas. Ele disse que a ‘América merece um líder que fale a verdade sobre o Genocídio Armênio e responda energicamente a todos os genocídios’. Ele está certo. Este é o líder moral americano que o mundo precisa e merece. Nos próximos dias ele terá a chance de ser justamente este homem.”

– Serj Tankian

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Arquivado em justiça social, música