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“…realizando em sua própria vida a arte que assumiu”

É fato: as melhores surgem a partir dos  mais submissos acontecimentos.
A idealização de um projeto como o Mondociberdelia, por exemplo, aconteceu após a maioria dos meios de comunicação terem cometido uma enorme falha cultural nas famosas retrospectivas de fim de ano.  No final do ano passado, acompanhei várias delas (no caso, as consideradas como “mais importantes”). Foi aí que, em um momento de indignação, tive a idéia de criar uma espécie modificada de observatório de imprensa, um blog-conceito para escrever sobre coisas que os grandes meios deixam para trás.  

 

 

Mestre Salustiano e sua rabeca

Mestre Salustiano e sua rabeca

 

E para fomentar tudo isso, um nome foi fundamental:  Manoel Salustiano Soares.
Nascido em Aliança, cidade da Zona da Mata de Pernambuco,  Mestre Salu foi o maior dançador de Cavalo-Marinho da região, um folguedo popular que participava desde criança, interpretandando vários personagens. Recebeu o título de “mestre” por ter interpretado Mateus durante nove anos.

O rabequeiro foi um dos maiores representantes do maracatu. Em 1968 criou o cavalo-marinho Boi Matuto (do qual era comandante, bem como do Mamulengo Alegre) e em 1997 fundou o Maracatu Piaba de Ouro, com o qual participou do festival de Cultura Caribeña, em Cuba.

Salu também foi mestre de grandes (e essenciais) nomes como Chico Science,  Antônio Nóbrega, Mestre Ambrósio (banda) e Cascabulhos (banda). Sempre lutou pela preservação das manifestações culturais da Zona da Mata Pernambuncana (como as cirandas, coco, mamulengo e o próprio maracatu) e levou sua cultura rural para países como Bolívia, França, Cuba e EUA. Salustiano também era artesão: fazia suas própria rabecas e confeccionava os bichos do bumba-meu-boi, as máscaras de couro do cavalo-marinho e os mamulengos.

Mas Mestre Salu não foi apenas “mestre”: em 1965 recebeu o título de doutor honoria causa pela UFPE ;  em 1990, foi agraciado com o título de reconhecido saber,  dado pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco;  em 2001,  recebeu a Ordem do Mérito Cultural, homenagem do  MinC  à pessoas/instituições que contribuem para o engrandecimento da cultura nacional. Por fim, em 2002 foi escolhido pelo Governo do Estado como Patrimônio Vivo de Pernambuco.  

Somente aos  54 anos de idade – e 45 de carreira – Salu lançou seu primeiro CD, “Sonho de Rabeca”.  Depois vieram  “As três gerações”, “Cavalo-marinho” e “Mestre Salu e a sua Rabeca Encantada”.

Mestre Salustiano foi uma das maiores – senão a maior – autoridade em cultura popular pernambucana. Faleceu aos 62 anos, no dia 31 agosto de 2008, após enfrentar a doença de Chagas por vinte (anos).
Mas parece que toda sua história, arte e conhecimento não foram “bons” o suficiente, afinal uma figura importantíssima como Salu não foi lembrando em nenhuma (sim, nenhuma) “homenagem póstuma” das tais retrospectivas que comentei, no início deste post.

 E assim surgiu o Mondo.

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Arquivado em arte & cultura, grandes nomes, música