apresentando: trupe sonora casa de orates

Já experimentou voltar a ser criança, questionar feito louco e misturar uma boa dose do que você sonha à realidade? A Trupe Sonora Casa de Orates faz arte Antroponírica: a arte do homem que sonha, uma mescla de intervenções cênicas e música.

Dia 25 de abril (sábado) a Trupe Sonora Casa de Orates apresenta o espetáculo “Sonhos, uma viagem ao onírico”, às 20h no Teatro Municipal de Itajaí.

Depois de participar do Festival Palco Giratório do Sesc em Blumenau, e abrir a segunda Bienal de Arte de Rua e Animação do Sesc de Lages, A Casa de Orates volta a Itajaí, agora com o espetáculo sob Direção Cênica de Cidval Batista Jr.

Sinopse:
Um homem faz um acordo com o bobo da corte do reino dos Sonhos, de aprisionar suas sete personalidades em uma cartola mágica. Porém, no alento da noite, ao adormecer, o homem encontra os seres de seu íntimo e embarca numa viagem introspectiva e lúdica ao mundo dos Sonhos.

Ingressos no Teatro Municipal ou com os integrantes do grupo – R$20 inteira. R$10 estudantes ou doando um livro (que não seja didático!)

http://www.casadeorates.com.br
myspace: http://www.myspace.com/trupesonoracasadeorates
tramavirtual: tramavirtual.uol.com.br/artista.jsp?id=20782
twitter: twitter.com/casadeorates

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Uncategorized

94 anos de negação

Esses dias recebi um email do Serj Tankian, relembrando toda sua trajetória e luta pelo reconhecimento do Genocídio Armênio.

Esta semana ele e o pessoal do Axis of Justice (organização criada por Serj, junto com Tom Morello, que luta por justiça social em todas as formas) estão lançando uma campanha de reconhecimento do Genocídio Armênio, em comemoração ao 24 de abril: dia mundial em memória das vítimas de atrocidades. E dia que, em 1915, marcou o início do primeiro genocídio (acima citado).

Com o apoio e participação de alguns notáveis colegas e ativistas (como Boots Riley, Adam Schiff – o deputado – e Morello, óbvio), Serj postou no YouTube e no MySpace, um vídeo em que pede para o presidente Barack Obama reconhecer oficialmente o Genocídio Armênio. Ao final, há uma mensagem incentivando as pessoas à liguarem para (202) 456-1414 (no caso, a ligação é internacional) e pedir urgência ao presidente Obama, em manter sua promessa de campanha e reconhecer as atrocidades cometidas durante a Primeira Guerra Mundial como Genocídio.

Como sou ativista do movimento que luta pelo fim do ciclo genocida (neste caso, Darfur) e pelo reconhecimento do genocídio armênio, deixo aqui o vídeo de Serj e uma carta escrita por ele (carta, essa, que ele pede para ser divulgada; por isso, tomei liberdade de traduzi-la e postar aqui!):

Nossa anual batalha contra a palavra “G”

“Todos anos, nesta época de abril, uma batalha é travada na Casa Branca e no Congresso; uma batalha única, porque tem em seu âmago uma palavra: genocídio.

As raízes desta luta residem nos últimos dias do Império Otomano, em meio à Primeira Guerra Mundial. Os governantes do Império Turco armaram um plano para, de uma vez por todas, livrarem suas fronteiras de sua maior minoria: os antigos cristãos-armênios, uma população de mais de dois milhões de pessoas, espalhadas por todo o território de Anatolia.

De um modo sistemático, as forças armadas do Império mataram mais de um milhão de indivíduos, começando com os intelectuais e com homens que tinham boa forma física. Em seguida, marcharam o resto para perto da morta certa, no deserto sírio, resultando na quase aniquilação de todo um povo e no exílio de uma nação, da sua casa de mais de 3 mil anos. Estas atrocidades foram amplamente divulgadas na época e, hoje em dia, é um dos massacres mais bem documentados e detalhados.

Para este dia, contra todas as evidências e desafiando até mesmo os mais elementares padrões da moral humana, a República da Turquia nega este crime. Eles também masterizaram Orwellian Newspeak, convencendo os cidadãos turcos, geração após geração, que o genocídio nunca ocorreu.

Cada ano, eles gastam milhões de dólares contratando empresas caras de lobby; criando cadeiras universitárias que patrocinam os negadores do genocídio; comprando as idéias de política externa dos think tanks aqui nos EUA e em todo o mundo e, ao mesmo tempo, ameaçando fechar as bases americanas na Turquia; bloqueando o acesso à nossas tropas no Iraque; ameaçam o comércio ou fazem reatalições contra a Armênia, com bloqueios e pressão econômica.

Eles pensam que apagando uma palavra – genocídio – irão, de alguma maneira, escapar da responsabilidade pelas mortes e sofrimento, roubos e desapropriações que causaram. A Turquia não pode mais desviar-se do veredicto da história ou dos requerimentos de justiça colocando uma tarja na palavra genocídio, assim como um assassino não pode escapar de sua punição por insistir que a palvra assassinato não existe.

Eu, pessoalmente, sou muito familiar com a palvra genocídio. Todos os meus quatro avós foram sobreviventes. No caso de meu avô, Stepan Haytayan (cuja história de vida é contada no documentário Screamears – assistam!), os soldados turcos chegaram em seu vilarejo, pegaram seu pai e todos os homens, para nunca mais serem vistos. Esta era uma prática padrão dos soldados turcos , que amarravam os homens para levá-los aos ‘campos de trabalho’, onde eram executados, deixando as mulheres crianças desprotegidas e sujeitas à marchas forçadas, descrita por Henry Morgenthau, embaixador americano da época, como ‘a morte justificada de toda uma raça’.

A semelhança entre o tratamento dos Armênios e o atual genocídio de Darfur foi apontado ano passado por Barack Obama, que notou que ‘tragicamente, estamos testemunhando no Sudão, muitas das mesmas práticas brutais – como deslocamento, fome e abate maciço – que foram usadas pelas autoridades Otomanas, contra os indefesos armênios, em 1915’. Não é coincidência que a Turquia é uma apenas uma, de um punhados de outras nações, juntamente com a China, que ainda vende armas para o regime genocida sudanês, ou que Ankara está tentando proteger seu líder, Omar al-Bashir, de um mandado de detenção pelo Tribunal Penal Internacional.

Mesmo antes do advogado internacional Raphael Lemkin, um pólo de herança judaica, cunhar o termo ‘genocídio’, estava claro para o mundo que um plano sistemático de exterminação racial havia sido executado pelos turcos otomanos. As motivações de Lemkin, em inventar este termo e levar sua carga para a Convenção do Genocídio foram, em grande parte, seus estudos sobre o genocídio Armênio cujo ele, com grande prospectiva, viu como plano para as destruições dos judeus europeus por Hitler e as brutais máquinas do estado nazista alemão.

Durante muitos anos, a Turquia alavancou membros da NATO, seu antigo papel na Guerra Fria, seu poder de lobby e alianças militares-industriais para comprar, intimidar ou ameaçar outras nações em silêncio sobre o genocídio armênio. Muitos países, incluindo os EUA, foram feitos reféns dos avisos de retaliações por parte da Turquia, mas outros vários estão levantando-se ante esta intimidação. Entre eles estão Canadá, França, Alemanha, Bélgica, Itália, Rússia e uma lista crescente que inclui 12 aliados da NATO. Aqui nos EUA, 41 estados já reconheceram o genocídio armênio.

Hoje, conforme vamos nos aproximando de 24 de abril, dia mundial em memória do Genocídio Armênio, olhamos para o Presidente e para o Congresso e esperamos que defendam o que é certo; pronunciem-se contra o genocídio armênio e todos os outros genocídios, a nível de valores americanos, e nunca mais permitam que os Estados Unidos sejam arrastados para baixo, ao nível das ameaças turcas.

Neste abril, a Turquia tentará bloquear, mais uma vez, a Casa Branca e o Congresso, de condenar e comemorar este crime, dando à ela própria uma votação a qual não merece nossa democracia americana. Um governo estrangeiro, particularmente um que suprime violentamente a liberdade de expressão através de seus próprios cidadãos, não deveria, nunca, ditar os direitos humanos nos Estados Unidos ou sua política de prevenção ao genocídio.

Nós, infelizmente, não aprendemos nossa lição. Aqui estamos, nove décadas depois do genocídio armênio – e integrando seis anos de genocídio em Darfur – e a comunidade internacional ainda precisa forjar uma durável e efetiva resposta ao genocídio. Líderes globais provam a má vontade que têm em interferir efetivamente para parar o massacre que continua acontecendo no Sudão. E eles estão sendo incapazes de criar coragem para acabar com as negações turcas. Por quê? Porque genocídio continua a ser uma questão política, permutada como uma mercadoria pelas grandes potências, e não um imperativo moral que todas as nações e todos os povos devem, a todo custo, agir para impedir.

Presidente Obama é o presidente americano melhor posicionado, em gerações, a trazer mudanças reais na questão de como a América e a comunidade internacional confronta as desumanidades em massa; e é a nossa melhor esperança para reunir as pessoas do mundo e encerrar os ciclos genocidas. Ele disse que a ‘América merece um líder que fale a verdade sobre o Genocídio Armênio e responda energicamente a todos os genocídios’. Ele está certo. Este é o líder moral americano que o mundo precisa e merece. Nos próximos dias ele terá a chance de ser justamente este homem.”

– Serj Tankian

1 comentário

Arquivado em justiça social, música

“…realizando em sua própria vida a arte que assumiu”

É fato: as melhores surgem a partir dos  mais submissos acontecimentos.
A idealização de um projeto como o Mondociberdelia, por exemplo, aconteceu após a maioria dos meios de comunicação terem cometido uma enorme falha cultural nas famosas retrospectivas de fim de ano.  No final do ano passado, acompanhei várias delas (no caso, as consideradas como “mais importantes”). Foi aí que, em um momento de indignação, tive a idéia de criar uma espécie modificada de observatório de imprensa, um blog-conceito para escrever sobre coisas que os grandes meios deixam para trás.  

 

 

Mestre Salustiano e sua rabeca

Mestre Salustiano e sua rabeca

 

E para fomentar tudo isso, um nome foi fundamental:  Manoel Salustiano Soares.
Nascido em Aliança, cidade da Zona da Mata de Pernambuco,  Mestre Salu foi o maior dançador de Cavalo-Marinho da região, um folguedo popular que participava desde criança, interpretandando vários personagens. Recebeu o título de “mestre” por ter interpretado Mateus durante nove anos.

O rabequeiro foi um dos maiores representantes do maracatu. Em 1968 criou o cavalo-marinho Boi Matuto (do qual era comandante, bem como do Mamulengo Alegre) e em 1997 fundou o Maracatu Piaba de Ouro, com o qual participou do festival de Cultura Caribeña, em Cuba.

Salu também foi mestre de grandes (e essenciais) nomes como Chico Science,  Antônio Nóbrega, Mestre Ambrósio (banda) e Cascabulhos (banda). Sempre lutou pela preservação das manifestações culturais da Zona da Mata Pernambuncana (como as cirandas, coco, mamulengo e o próprio maracatu) e levou sua cultura rural para países como Bolívia, França, Cuba e EUA. Salustiano também era artesão: fazia suas própria rabecas e confeccionava os bichos do bumba-meu-boi, as máscaras de couro do cavalo-marinho e os mamulengos.

Mas Mestre Salu não foi apenas “mestre”: em 1965 recebeu o título de doutor honoria causa pela UFPE ;  em 1990, foi agraciado com o título de reconhecido saber,  dado pelo Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco;  em 2001,  recebeu a Ordem do Mérito Cultural, homenagem do  MinC  à pessoas/instituições que contribuem para o engrandecimento da cultura nacional. Por fim, em 2002 foi escolhido pelo Governo do Estado como Patrimônio Vivo de Pernambuco.  

Somente aos  54 anos de idade – e 45 de carreira – Salu lançou seu primeiro CD, “Sonho de Rabeca”.  Depois vieram  “As três gerações”, “Cavalo-marinho” e “Mestre Salu e a sua Rabeca Encantada”.

Mestre Salustiano foi uma das maiores – senão a maior – autoridade em cultura popular pernambucana. Faleceu aos 62 anos, no dia 31 agosto de 2008, após enfrentar a doença de Chagas por vinte (anos).
Mas parece que toda sua história, arte e conhecimento não foram “bons” o suficiente, afinal uma figura importantíssima como Salu não foi lembrando em nenhuma (sim, nenhuma) “homenagem póstuma” das tais retrospectivas que comentei, no início deste post.

 E assim surgiu o Mondo.

4 Comentários

Arquivado em arte & cultura, grandes nomes, música

artesão da cinematografia

Curved Street, por Nuri Bilge Ceylan

Curved Street, por Nuri Bilge Ceylan

Arte de alta qualidade, é isso que Nuri Bilge Ceylan faz.
Nascido (1959) e criado em Istambul, Ceylan pode ser considerado uma das cabeças mais promissoras do cinema artístico contemporâneo. Fotógrafo desde os 15 anos, interessou-se pela sétima arte aos 22, quando descobriu “O Silêncio” – último filme da “Triologia do Silêncio”, de Bergman.

 

Em 1995 lançou-se no mercado cinematográfico com o curta-metragem Koza e em 1998 ele escreveu, dirigiu e filmou seu primeiro longa, o belíssimo Kasaba.  A partir daí, sua arte não encontra mais barreiras.

Na maioria de suas obras (e isso inclui seu trabalho fotográfico), Ceylan trata do existencialismo humano e individual,  retratando a monotonia daquilo que considera como “verdadeiras vidas” através de pequenos detalhes – mas que acabam criando grandes personagens.

A carga emocional contida em seus trabalhos é supreendente, e boa parte disso acontece pelo fato de que Ceylan é avesso ao dramatismo de atores. Para conseguir a naturalidade desejada, os intérpretes de seus filmes são seus amigos, familiares ou ele mesmo (como no caso de Iklimler [Climates], 2006) e os cenários, lugares já conhecidos (Uzak, por exemplo, foi filmado em seu apartamento). Aliando isto às longas tomadas estáticas, Nuri atinge uma espécie de interiorização máxima das personagens, seu chamado “fluxo de consciência estética”.

cena do filme Kasaba

cena do filme Kasaba

Essa busca para aprofundar os sentimentos se desenvolve de uma maneira singular – com um quê de Antonioni, Bergman e Tarkovski – num mundo vago e com poucos diálogos. As dificuldades e complexidades da vida, em paralelo com a própria sociedade, são retratadas de forma minimalística.

E como estamos falando de um cineasta-fotógrafo-faz-tudo (afinal, é ele quem escreve, digire, filma, fotografa, produz e, por vezes, atua ) os detalhes técnicos também são únicos. Começando pela própria fotografia:  seus  planos de imagens são deslumbrantes. Ceylan abusa de sombras, tons escuros e introspectivos  para “esconder” o rosto do ator  (isso quando ele não o filma de trás), na intenção de fazer com que o espectador descubra – e até mesmo sinta – as emoções do personagem  naquele momento.

Outra peculiaridade de Nuri é sua preocupação com a ambientação sonora: as portas abrindo e fechando, a gota de água caindo na chapa  do fogão à lenha, os carros passando numa rua distante e até mesmo o barulho irritante das moscas… Tudo aquilo que, para nós, passa despercebidos por ser  “insignificante” em nosso dia-a-dia, para Ceylan é importante, pois cria a narrativa sonora (nota-se a quase ausência de música em seus filmes).

Nuri Bilge Ceylan é mais do que grandioso. Talvez seja por isso que ele sempre acrescenta alguma particularidade de sua vida em suas obras… para obter uma espécie de reconhecimento por aqueles que, assim como ele, tem capacidade maior de observação.

Quem quiser saber mais sobre todos os filmes e seus respectivos prêmios conquistados, basta acessar seu site. Lá você também encontra uma segunda parte, voltada essencialmente para seu trabalho como fotógrafo.

Backyard, por Nuri Bilge Ceylan

Backyard, por Nuri Bilge Ceylan

 

2 Comentários

Arquivado em diretores, filmes, fotografia

a nova sociedade secreta

Bookhouse Boys é um nome bastante sugestivo para quem é fã de cinema  (principalmente de David Lynch) e trilhas sonoras, afinal, assim foi intitulada a misteriosa sociedade secreta do seriado Twin Peaks, produzido por Lynch e Mark Frost, nos anos 90. E  nada mais sugestivo para uma banda que parece ter saído diretamente de alguma trilha sonora de Tarantino, do que um nome que nos remete à sétima arte: The Bookhouse Boys. 

The Bookhouse Boys

The Bookhouse Boys

Formada por nove integrantes (duas baterias, dois trompetes, duas guitarras, dois vocais, teclado e baixo), o grupo londrino inovou o que parecia, até então, estagnado.  As músicas são uma mistura de dirty-surf-music, com trompetes mariachi e guitarras meio Dick Dale.  Os vocais, por ora, soam meio doo-wop. A voz de Paul Van Oestren lembra muito Nick Cave (nos áureos tempos do Bad Seeds) e um pouco de Tom Waits.  e sempre tem como contrapoto a suavidade da voz de Já Catherine Turner (única integrante feminina!) é seu contraponto, doce e suave.  E os elogios não param por aí… As letras melodramáticas e psicologicamente agitadas harmonizam-se perfeitamente com a música, que por si só, é um tanto obscura.

Sem falar na  questão semiótica e visual envolvida: em Twin Peaks, as reuniões da sociedade secreta eram feitas num antigo prédio cheio de livros (daí o nome bookhouse), construído entre a década de 40 e 50, com a estrutura em madeira e mobília velha. Na sala de reunião também havia um bar & café, onde os “sócios” faziam sua própria bebida.
Numa jogada inteligentíssima, a banda incorporou tais características (cenários e figurinos, por exemplo) e adquiriu identidade própria, criando uma espécie de “sociedade secreta da música”.

O grupo  foi descoberto por uma pequena gravadora indie (Black Records), na época em que eles próprios estavam produzindo o álbum, no porão da casa de Van Oestren.  Em agosto de 2008 eles lançaram o primeiro cd “The Bookhouse Boys”  que, a propósito, é um ótimo trabalho de estréia.

Quem quiser ouvir algumas músicas, basta acessar o MySpace da banda.
Finalizo com o clipe da boníssima “I can’t help myself“:

 

Deixe um comentário

Arquivado em música

crônica: marcelo mirisola

Para complementar o último post, sobre Marcelo Mirisola, aqui vai uma de suas [polêmicas] crônicas publicada no Congresso em Foco, dia 03/06/2008.  
É comprida, mas Mirisola é Mirisola!

Carta ao Jovem Dostoiévski do Jardim Casqueiro
(Marcelo Mirisola)

São Paulo, 1º de junho de 2008 

Caro amigo,

 

“Aquela tarde no Jardim Casqueiro realmente não foi um constrangimento apenas para você. Além de quase ter sido linchado por conta da falta de senso de humor dos manos locais, eu tive que dar um balão no motorista da Viação Ultra, e ainda por cima perdi meu DVD das Brasileirinhas. O DVD da Leila Lopes!

 

Meu caro Dostoiévski do Jardim Casqueiro:

 

Não existem autores em questão. Nem livros. Apenas o show. O Pavonear.  A agenda, os contatos. As oficinas, workshops e piqueniques. Paraty, Passo Fundo, Jabuti. As planilhas e os editais. Funarte, Petrobras, Lei Rouanet. Os amigos nas redações e nas editoras. O próximo livro do Chico. O timing certo para agradar o sujeito que lhe deve favores. O vice-versa e os rapapés e canapés correspondentes. Hoje em dia os amores são expressos e a vida é passageira, e todo mundo é escritor: com exceção do cobrador e do motorista … e da Leila Lopes. Lembra dela? A professorinha da novela “Renascer”. Lembrou, né?

 

Pois então, meu caro Dostoiévski , aqui vai um aviso: o Jardim Casqueiro é apenas o prenúncio de um mundinho do qual eu queria me excluir. Infelizmente não consegui.  Desejo melhor sorte para você, mas acho difícil. Pelo que conheço dos seus livros, e de suas necessidades, creio que vai fracassar.

 

Você é um sujeito amargo, doente e desagradável. Deve sofrer do fígado. Por que insiste nessa bobagem? Ah, meu caro. Você sabe que os manos aí do Casqueiro jamais entenderão os seus personagens inventados. Eles não entendem uma piada! Tudo o que é diferente da realidade lacrimosa e sanguinolenta deles não existe: para a “facção do bermudões”, o real é o fantástico, e não o contrário. Se liga!

 

Claro, o acostamento é o seu mundo, eu compreendo. Você teria de convencê-los. O problema é que você não quer negociar nem com os playboys, e nem com os seus irmãozinhos. Aí fica difícil, né? Como é que você vai sobreviver se não sabe fazer trocadilhos, e é um fiasco com as rimas? Em que mundo pensa que vive, rapaz?

 

Quer saber? Pois eu lhe digo. Um mundinho feito de conchavos, e acordos. Quando você escreve não pensa num filme? Assim não dá. Em vez de insistir com essa bobagem de Irmãos Karamazov, devia pensar em algo mais elaborado, tipo… o Rap do Teletubie.

 

Para mim é muito difícil dizer isso, mas não tem jeito. Vamos lá, prepare a bílis. Você tem que “dialogar” com as outras artes. In-te-ra-gir, compreende? Aqui as famílias são unidas. Quer um conselho? Enfia os Karamazov no rabo, não mostra para ninguém. O talento é imperdoável. Ou você tem vocação para costureiro, relações públicas, releases, resumos e tapinhas nas costas… ou você está morto. A liberdade consiste em ser escolhido, jamais em escolher.

                                                                                                                                                          

O prejuízo, portanto, é todo seu, meu caro.

 

Esqueça a literatura, e pense nas viagens e nas palestras remuneradas. Sexo. Negócios, frugalidade. Os amigos existem para isso. Um monte de amigos, e um monte de editais. Bolsas, prêmios à mancheia. Em vez de ficar remoendo esse rancor, você poderia se dar muito bem. Mas você prefere o Jardim Casqueiro a uma história de amor em Paris… O que eu posso fazer? Amigos, um milhão deles, e puxa-sacos dos mais variados matizes e arrebites, porém todos redundantes, e iguais. Qual o problema?

 

Um mundo abjeto sim, e escroto. Contudo, não dá simplesmente para dizer “não é o seu mundo”. Muito pelo contrário. Você nem sequer poderia descartá-lo. Não é a lama sua matéria-prima?  Eu sei que é.

 

Desculpe a brincadeira, mas a parte que lhe cabe nessa lama… é um cesto. De caranguejos!

 

Onde você foi parar? Deve ser difícil ter de vender caranguejos no acostamento da Imigrantes para sobreviver. Deve ser nojento. Eu tô ligado, mano. E é por causa dessa lama, desconfio, que compartilhamos alguma afinidade. Portanto, me escuta. O que é minúsculo, sórdido, mesquinho e humano me interessa. E, creio, deva lhe interessar, acho que sim.

 

Para sua informação, existe um Aleph nesse esgoto. A confluência de todas as pequenezas numa só. Vamos imaginar um ser genérico. Bíblico. Que existe, existiu e existirá em todas as épocas. Pois bem, em 1949 Jorge Luis Borges (já ouviu falar desse argentino?) o descobriu no vão de uma escada, num porão da calle Garay. Antes de Borges, o Aleph tinha lá seu encanto e austeridade. Vivia sua vidinha reclusa, e grandiosa.

 

O problema é que foi nomeado. Como era o infinito em um só, e era muitos e todos de uma só vez, aproveitou-se da suposta cegueira do argentino, e deu o pinote. Perdeu o pudor, e ganhou as ruas. Caiu na gandaia. E, claro, degenerou-se.

 

Virou arroz-de-festa, ostenta o ir e o vir. Tem nome e sobrenome, dá workshops, e arrumou um namorado que é garçom de uma pizzaria na Vila Madalena. Inverteu a própria equação. O Aleph virou Carmem Miranda.

 

A fim de facilitar as coisas, meu caro Dodô do Jardim Casqueiro, desconsideraremos o Plural. Creio que é conveniente darmos um novo nome ao Aleph. Vamos tropicalizá-lo, simplificar a coisa. A partir desse momento, o Aleph do esgoto passa a se chamar Pavão Cabeçudo.

 

Tá bom assim? Ele é um avanço tecnológico da canalha, da abjeção. Mais do que um sintoma, ele é uma continuidade. Ele é o Chalaça pós-moderno e o eterno conselheiro Acácio, o professor Unrat (tradução: lixo), o traficante colombiano, o gigolô que assoprava nos ouvidos da meretriz apaixonada “só casando, Herculano”, ele é o resumo da escória, o diabo em estado de degenerescência, e o pior: não exige prática nem habilidade. É simplório, encantador e divertido, não, não, ele não é um filho da puta.

 

Um filho da puta não tem nuances. Não tem o charme do Pavão Cabeçudo, nem o magnetismo. Não vou dizer que ele é admirável. Quase. Tem lá sua graça, e as platéias que lhe convém. Eu mesmo já lhe servi de orelha e claque – inúmeras vezes. Não reconhecê-lo em seu pavonear seria um erro mortal. Ele é o gênio da agenda.

 

Afável, ele (que é todos em um só) sabe localizar e chamar para si a qualidade do(s) outro(s). Por conta disso, sempre arruma um caráter para sair à noite… ou ir à feirinha da USP. Sempre dá um jeito – como se combinasse a roupa    para que esse “caráter” não desagrade aos interesses da companhia de ocasião, ou a platéia da vez.

 

Ele é premeditado, e jamais se mete em encrencas, estuda o terreno e sempre tem uma palavra de conforto a quem lhe pede socorro. Uma antologia no bolso do colete. O escaninho certo na hora adequada. O Pavão cabeçudo é o senhor das facilidades e o mestre do improviso, e “os eventos” acontecem aparentemente na base da casualidade. Mas não se engane, não existe “casualidade” nem gratuidade nesse jogo. A rinha é violenta, e a disputa não é para amadores. Atente para essa palavra: “casualidade”. O dia que você deixar essa carranca de lado, e for comigo à Vila Madalena, vai entender o que eu falo. A decoração nos barzinhos que ele freqüenta é assim, “casual” – porém só na aparência. Tudo é decoração. Tudo é premeditado para que as pregas afrouxem e a fatura seja devidamente cobrada na hora da saída, entende?

 

Como é que é? Um livro chamado “Crime e Castigo”? Não, acho que não: ninguém vai se interessar. Esse negócio de claustrofobia,de autismo cristão está meio fora de moda. Me escuta,cretino! Tô falando do Pavão Cabeçudo, quem é você? Se liga, cara! 

 

Presta atenção.

 

Imagino que segunda-feira de manhã – por conta das várias ressacas & compromissos acumulados – seja o único dia da semana que não sirva (ou caiba) caráter algum no figurino do Pavão. Mas aí a secretária eletrônica, ou o Chocotone, quebram o galho dele. Quem é Chocotone? Você parece um ingênuo, meu caro. Não lhe falei que ele tinha um namorado que trabalhava de garçom numa pizzaria? Pois então! Trata-se do Chocotone: o namorado invisível do Pavão Cabeçudo. Um subsídio. Aliás, tudo é subsídio e todo subsídio tem seus desdobramentos e contrapartidas. Aprenda. Já ouviu falar em capitalização, joint venture?

 

Digamos que o Chocotone é um investimento. Ou algo que dá uma aura de diversão e descompromisso. Não, seu mané, o que conta é que ele de fato existe, e não o contrário. O que conta é o verniz.

 

Quem é você?

 

Pensa bem. Você, meu caro, antecipou o niilismo e o anarquismo e várias revoluções que não deram em absolutamente nada. Antecipou Freud. Atacou ferozmente a mentalidade positivista, voltou-se contra o racionalismo ocidental, encantou Nietzsche e acabou aí no acostamento da Imigrantes, vendendo caranguejo. Portanto, cala a boca e me escuta.

 

Qual livro? “Recordação da casa dos mortos”?  Tá me tirando, mano? Como você vai lançar um livro desses… na Livraria da Vila? Já passou da hora de você amadurecer, meu caro. Ninguém quer saber de situações extremas. Seja adulto, pense nos grandes vultos que o antecederam. Escreva sobre lancheiras e papel alumínio. O Pavão Cabeçudo vai adorar, e decerto vai citá-lo no blogue dele. Pense em King Kongs, e engradados de cerveja. Nunca ouviu falar em samba de raiz? Não freqüenta o Odoborogodó?

 

Informe-se.  O que você faz é uma quimera, cocô de galinha perto da “oralidade” do Pavão Cabeçudo. Isso mesmo, “oralidade”. Não, não. Ele não é um cantor, e não é ator – ou talvez seja. Sei lá. Por favor, não me interrompa mais. Ouça!

 

Nosso encantador Pavão Cabeçudo é herdeiro dos morros, das vielas e das lavadeiras do São Francisco, ele é abençoado pelos Orixás e feio pela própria natureza. É feio, mas é bonito. O pavão sempre dá um jeito! Ele é pior do que Deus! Em primeiro lugar, porque ele existe e está em todos os lugares – e sempre está sempre bem acompanhado. Aliás, muito bem acompanhado.

 

Esqueça os abismos, os desvãos tonitruantes da alma… a desolação, e esqueça o frio da eternidade. Puta cara chato, parece que vive na Rússia! Presta atenção! Não é que ele seja “pior” que Deus, digamos que é mais eficiente. Sim, porque ele tem uma agenda e não brinca em serviço, nosso Pavão Cabeçudo usa os contatos e as paixões para conduzir sua vida minúscula, e se deixa prazerosamente levar pelas idiossincrasias alheias: porque sabe exatamente qual o seu tamanho. Isso é mais do que intuição. Sabe de onde veio, e para onde vai. Inveja, eu?

 

Confesso: tenho inveja de você, queria ter escrito “Memórias do Subsolo”. Qual o sentimento que eu tenho por ele? Bem, mais ou menos o sentimento de alguém que foi roubado, e que cometeu o crime de ter seus bens subtraídos, entende? 

 

Não entendeu? Nem eu. Ele surrupiou minha razão também. Sobrou-me apenas a mesquinharia, e o isolamento. Da mesma forma que você não consegue acompanhar os carros que passam em alta velocidade na Imigrantes, e se volta desconsolado para o cesto de caranguejos, eu vejo (aliás, vi) meus dias de fartura e reconhecimento serem subtraídos por ele. A diferença é que carrego escorpiões no meu cesto. O que eu tinha de mais torpe, humano e trivial, ele levou.

 

Você bem sabe o que é ter a lama por companhia. A festa – infelizmente – é no outro apartamento, como diria a lésbica mais talentosa da MPB, depois da Ângela Rô Rô.

 

Ah, meu caro. Eu peço que tenha mais um pouco de paciência. Sei que perdi o crédito, e que os meus adversários me tomam por ranzinza, rancoroso e maluco. Concordo com as duas primeiras acusações. Agora, não aceito que me desqualifiquem dizendo que sou maluco, isso é golpe baixo. Posso ter perdido a razão, mas não enlouqueci. Eu sei exatamente o que perdi. Maluco, não. De jeito nenhum!

 

Me escuta, apenas isso. Depois conclua da forma que melhor lhe convier. Escuta, escuta. Ninguém nasce em Garanhuns ou em Sertânia por acaso. Buenos Aires era apenas um esconderijo. Se o Pavão quisesse, poderia transformar água em vinho. Ou ter negado o amigo três vezes, mil vezes. Tanto faz. Quem é tudo também é coisa nenhuma (desculpe a obviedade). Quero dizer: ele poderia ser o que bem entendesse, porque é refratário, vazio. As únicas coisas que realmente possui são instinto de sobrevivência e prazo de validade.

 

Mas pode ter a certeza de uma coisa, meu caro amigo: vamos apodrecer antes dele. O presente pode durar muito tempo.

 

O Pavão é a síntese de nossa época. Uma época sem talento. Não foi coincidência a libertação dele. O argentino que o libertou sabia o que estava fazendo. Inventou a chave do conhecimento e jogou fora.

 

Agora as luzes se apagaram. Ele está de volta. E trouxe a corrupção consigo, e junto trouxe vários cúmplices e testemunhas – que preferiram permanecer em silêncio. Ninguém quer perder a boquinha, né? O Pavão Cabeçudo encurralou a barbárie e deu um xeque-mate na civilização. Foi absolvido pela imagem e pela semelhança. Usa roupas largas e folgadas, e chinelos de couro.

 

Isso tudo foi arquitetado por Borges, para se vingar da cegueira e da aversão que sentia pelas mulheres: leia-se erudição. Não por acaso, as maiores influências do Pavão Cabeçudo são as canções que ouvia da mãe lavadeira. Tudo é improvisação e repertório: “sou filho de lavadeira, vixe, ôba-ôba”.

As platéias se identificam. Um pouco com o deboche. Outro tanto com a miséria festejada. Mas sobretudo com a boçalidade e a falta de alternativas. Ele é o Rei dos esgotos. O Rei das conscienciazinhas pesadas.

 

O argentino deve estar se contorcendo às cambalhotas na eternidade. Tirou da cara de todos. Ele sabia que o Aleph ia virar Carmem Miranda, e depois Pavão Cabeçudo. Barbárie e civilização, as duas faces da mesma moeda, lembra?

 

Tá difícil, meu caro Dostoiévski . E eu desconfio que a minha situação é mais comprometedora do que a sua. Porque nasci do ventre da patroa da mãe do Pavão Cabeçudo – isso sim é imperdoável.

 

E o pior de tudo é que também não sei fazer rimas, nem trocadilhos. A propósito: quanto está a dúzia do caranguejo aí? Tem um lugar para mim no acostamento?

 

Onde o conheci?  Foi em 2001, no Franz Café da rua Fradique Coutinho.

 

Aqui faço uma pausa.

 

Quer saber mais?  Quer saber as histórias sórdidas do Franz Café? Já ouviu falar de uma tal de Geração 90? Pois foi lá que tudo começou… “

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em crônicas, literatura

máquina de escrever

“Junto com Fernando Bonassi, MM criou no Brasil um gênero novo: a literatura suburbana. Sua  maravilhosa linguagem é uma demoníaca mistura de deboche oral e livres associações de idéias”
(Manuel da Costa Pinto, ensaísta e editor da revista Cult)

 
Marcelo Mirisola (paulista, 1966) é o escritor contemporâneo mais escatológico que podemos encontrar. Autor de contos, crônicas e romances, MM (como auto intitulou-se) abusa da não-linearidade e de confusas viagens ególicas para escrachar a sociedade – principalmente a classe média. Humor, ironia, linguagem chula e sarcasmo de boa qualidade é o que não falta em suas obras.

MM não tem papas na língua – seja para falar sobre sua tara pela vizinha lésbica e outras perversões sexuais  ou para criticar celebridades – o escritor não poupa em nada no que diz respeito a sexo, violência,  escatologia e lirismo, sim senhor! Seu dom para incomodar os outros já lhe rendeu algumas polêmicas e muitos desamores . Além disso, sempre que tem oportunidade, Mirisola sai distribuindo tapas de luva nos organizadores de prêmios e feiras literárias por dois simples motivos: nunca ter ganho um prêmio (ou uma mísera medalha) e por não ser convidado para estes eventos.

No total de suas obras, ele publicou os romances O Azul do Filho Morto (2002) e Bangalô (2003); Joana a Contragosto (2005) e Animais em Extinção (2008); os contos Fátima Fez os Pés Para Mostrar na Choperia (1998) e Herói Devolvido (2000); as coletâneas O Homem da Quitinete de Marfim, coleção de suas crônicas para a AOL (2007); e  Proibidão, coleção de seus contos proibidos (2008); ele também publicou O Banquete (2003), textos escritos baseado nas ilustrações do cartunista Caco Galhardo; e Notas da Arrebentação (2005), uma carta aberta ao escritor Juliano Garcia Pesanha, com um monólogo para teatro no fim.

Marcelo Mirisola veio para salvar a sociedade com sua genialidade única. É o nosso Bukowski. 

Foto: J.R. Duran, divulgação/ZH

Foto: J.R. Duran, divulgação/ZH

 A título de curiosidade, MM é formado em Direito, morou por alguns anos em Florianópolis e atualmente está radicado no Rio de Janeiro, onde publica suas crônicas regularmente no site Congresso em Foco.

 Para finalizar, estou disponibilizando um link para uma entrevista (em vídeo) que ele deu para o programa Bitnik  (realizado pela Fnac). Vale a pena assistir – até porque sua história sobre o Ursinho PomPom é impagável! 

  

1 comentário

Arquivado em escritores, livros